Ganhei a Sofia no mesmo dia em que perdi minha filha.
Fui palhaço de circo por mais de cinquenta anos. Fiz fila de criança rir em cada cidade que pisei.
A única que nunca riu pra mim foi a minha filha. Eu vivia na estrada, longe dela.
Ela morreu no parto da Sofia. Eu cheguei no dia seguinte — com uma menininha viva nos braços e um pedido de perdão que não deu tempo de fazer.
Naquele corredor de hospital, eu prometi: não vou errar duas vezes.
Minha plateia agora é uma menina de seis anos.
A Sofia tem seis anos e me chama de pai.
Toda sexta eu me pinto de palhaço só pra ela. Ela senta no chão, bate palma antes de eu começar e ri de tudo — até do que não tem graça.
Eu nunca sei qual vai ser a última apresentação. Então cada uma é a mais importante da minha carreira.
A válvula do meu coração virou pedra.
O nome é estenose aórtica grave. A válvula que devia abrir a cada batida do coração endureceu.
O médico foi honesto comigo: quando começar a faltar ar, o tempo está acabando.
O SUS faz a cirurgia de peito aberto — mas meu coração não aguenta esse corte. A que eu aguento, por cateter, tem um preço que eu não consigo pagar.
Meu medo não é morrer. É o dia seguinte: sem mim, a Sofia vai para um abrigo. Vira uma criança do Estado.
Eu não sei pedir. Mas eu sei fazer rir.
Então montei a única coisa que eu tenho pra oferecer: meu último espetáculo. Três semanas gravando na sala de casa, com lençol de fundo e luminária emprestada.
O nome é 'Pra Uma Pessoa Só' — porque a plateia que importa é uma criança sentada no chão.
Cada contribuição é um ingresso simbólico desse show. É o meu jeito de trocar cinquenta anos de risada por mais um pouco de tempo com ela.